Mês: janeiro 2017

#24 Quando (6 Diálogos no balcão do bar) 

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 —Vou logo dizendo que só aceitei te encontrar aqui porque quero te mandar, pessoalmente, parar de ficar enchendo o saco das minhas amigas pra ter noticias minhas!

— Vamos sentar numa mesa.

— Não! Vou ficar aqui mesmo, não vou demorar.

 — Caçapa, traz uma cerveja e dois copos.

— Não! Traz duas long neck. Não quero dividir nada com esse ai, nem a conta.

— Mas eu ia pagar tudo, Tereza.

— Senhor pode tudo porque tem dinheiro, eu vou tentar deixar bem claro pra você: Eu não preciso do teu dinheiro, tenho o meu! Ouviu, Mario?! Se não, eu posso desenhar no photoshop pra você!

— Tereza, o que eu te fiz pra você começar a me tratar assim do nada? E outra você trocou de número? Eu te mandei uma mensagem no whatsapp, mas só apareceu um tracinho mostrando que a mensagem não foi, e nem aparece mais sua foto de perfil.

— Te bloqueei.

— Por quê?

— Porque lá tem essa opção.

— O que te fiz pra você me tratar assim, Tereza? Eu te convidei aqui pra conversar, pra tentar entender o que tá acontecendo.

— Tu sabe muito bem o que tu fez.

— Não, Tereza, eu não sei. Só sei que a gente tava se dando bem até você começar a me evitar e me bloquear no whatsapp.

— Não vem com essa, tu sabe muito bem do que fez. Cara, eu tava muito a fim de você e você foi super babaca comigo, como um bom playboyzinho que você é.

— Desculpas, “senhora sou da periferia”. Mas eu não tenho culpa de nascer em uma família que tem dinheiro.

— Quantos apelidos você já me deu? Esse já é o segundo, o primeiro foi puta, lembrar?

— Quando eu disse isso?

— Tá com amnesia, “playboy que gosta de ir em bar de pobre?!” Esqueceu da sua mensagem perguntando quanto eu ia te dar uma chance. Quanto?! Quanto?! Você tá achando que eu sou o quê?! Se isso não é me chamar de puta o que é, seu porco!

— Foi o corretor ortográfico, eu quis mandar quando.

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#23 Opiniões lixo 

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Cinco horas da tarde de um sábado quente, que em São Luis significa um dia como outro qualquer. O Vilson estava bebendo na parte da frente do bar sozinho até que chegou o Wesley, seu convidado e irmão mais velho da sua nova namorada, que ele convidou para tentar impressioná-lo, pois sua amada disse que pra ela seria muito importante a aprovação dele.

 O Vilson tirou sua bolsa de costa que estava na cadeira que ficava a sua frente e colocou na que estava ao seu lado, pra que assim o irmão da sua namorada sentasse de frente pra ele. Ele estava preparado para falar sobre vários assuntos sérios, tipo, legalização do aborto, das drogas, casamento gay, política, corrupção, modernidade líquida, a playboy sem foto de mulher pelada…

Só não estava pronto pra aturar alguém sem conhecimento algum e que todos os argumentos são baseados em achismos e pouca informação que obteve através das redes sociais. Depois de ouvir com muita atenção o ponto de vista pífio sobre a legalização das drogas. O Vilson tentou mostrar o que acha sobre o assunto, mas foi interrompido pelo ignorante que achava que falar mais alto é uma forma de mostrar o quanto esta certo o seu ponto de vista.

A interrupção se repetiu varias vezes enquanto ele tentava refuta os argumentos do cunhado em relação aos assuntos que ele colocava na roda, até que ele desistiu e a única coisa que fazia a cada nova opinião dada era toma um copo cheio de cerveja pra empurrar garganta a baixo todas as palavras que queriam sair da sua boca — fez isso pensando na namorada.

O namorado da irmã ficar calado ouvindo ele falar, o fez imaginar que o seu cunhado estava interessado em ouvir-lo dizer o que pensava sobre várias coisas e com isso ele fez questão de mostrar que tinha uma opinião desenformada sobre vários assuntos.

 De acordo com a universidade federal de SP, cada brasileiro produz em média 1 quilo de lixo por dia. Se for fazer a pesquisa incluindo as opiniões dele, o Wesley ficaria bem a cima dessa média. Ainda mais porque a cada vez que ele abria a boca pra falar sobre um assunto novo, mais lixo saia.

E o Vilson deixou a cerveja de lado e pediu um copo cheio de vodca, depois pediu um de tequila, logo em seguida cachaça, não uma dose, um copo cheio e por fim whisky. Por incrível que pareça estava dando certo, o irmão da sua namorada estava gostando muito dele, porque ele o ouvia com muita atenção.

Até que o Vilson, já embriagado e com o foda-se ligado, tirou da sua bolsa um caderno e uma caneta e pediu pro cunhado escrever todas as opiniões que ele tinha dado a noite inteira, porque no bar tem o único lugar possível onde aquelas opiniões devem ficar —  Ele usou exatamente essa frase.

Foi ao banheiro, enquanto mijava, tentou escrever uma mensagem pra sua namorada, mas como estava com a visão turva, só conseguiu mandar um áudio dizendo “espero que lembre que te amo.”

Saiu do banheiro e foi direto a mesa e viu o seu convidado empolgado e já acabando de escrever a segunda pagina. Se sentou no mesmo lugar de antes e com muita satisfação e paciência esperou o homem que tem a solução pra todos os problemas do mundo acabar de escrever. O Wesley escreveu seis paginas e entregou pro Vilson, que pegou as folhas, veio em minha direção, pagou a conta e ainda deu dez reais a mais, falou baixinho com a intenção de apenas eu ouvir:  — Assim que nós dois sairmos, jogue essas folhas no lixo.

#22 O animal


Passou a vida quase toda sendo chamado de bicho preguiça pela mãe, porque quando ela o mandava fazer algo, ele dizia que já estava ocupado testando se o sofá realmente não deixava de ficar confortável mesmo com o passar dos tempos, como prometeu o vendedor. E a TV ligada era porque leu uma vez que não é bom deixar os eletrodomésticos ficarem muito tempo desligados se não eles dão problemas. Sendo assim, a mãe dele tinha que ficar feliz por ter um filho tão útil e prestativo. 

Do ensino fundamental até o ensino médio foi muitas vezes chamando de burro. Se você nunca foi chamado de burro por ter feito ou deixado de fazer algo que não tem nada a ver com falta de inteligência na escola, você realmente frequentou a escola? Na aula de educação física, quando errava um passe ou um gol na cara, ouvia em unísolo “viado”.

Aos 17 anos, quando começou a frequentar academia, teve que aturar ser chamado de frango. E como em bolsa de maromba tem espaço pra vários suplementos, uma marmita com batata doce e ovo cozido, foto do Arnold Schwarzenegger, mas não tem espaço pra colocar o desodorante, por muitos vezes foi chamando de gambá quando voltava de ônibus depois de fazer musculação. 

Na academia conheceu a Marcela, que só chamava o de gatinho e isso fez ele criar esperança em ter algo com ela. Começaram a namorar e por muitas vezes foi chamado de cachorro, mas no fim dessas discussões sua namorada sempre acabava satisfeita na cama e chamando ele de meu touro. O Cristian se sentia o cara quando ela o chamava assim. Até hoje, quando veio beber com o Neto, e o seu amigo mostrou uma foto a ele na qual fez ter certeza que quando a Marcela chama ele de touro, ela não estava se referindo ao seu desempenho na cama.

#21 Primeira impressão (5 diálogos no balcão do bar)

— O que te aconteceu pra vc tá tão calado?

— Uma parada ai, bicho. 

— Pode ficar à vontade pra falar, cara.

— É parada minha.

— Rapá, tu tá falando com um amigo, pode ficar tranquilo.

— É que eu conheci os pais da minha namorada, acho que nao deixei uma boa impressão.

— hahaha. Porra, é isso?! Pensei que era algo grave. Tipo meu caso que me apaixonei por uma travesti e não sei como apresentar ela pros meus pais que, como tu sabe, são evangélicos.

  — O quê?

— O quê, o quê?

— O que tu disse.

— Que eu tô apaixonado? 

— Não o que tu disse depois.

— Que meus pais são evangélicos.

— Não, antes.

— Ah, sim. Não sei como apresentar pros meus pais. É isso que você não entendeu direito?

— Não, mas deixa pra lá.

— Mas sim, cara. Fica tranquilo, a primeira vez que você fala com os pais da sua mina é sempre estranho mesmo. O único cara que não passou por esse momento constrangedor foi o Adão.

— Eu nunca mais vou conseguir olhar nos olhos deles.

— Rodrigo, relaxa, com o tempo você mostra que é un cara legal, eles vão esquecer essa primeira impressão que tu acha que foi negativa.

— haha que eu acho?! hahaha. Cara, eu tava com a minha mina na sala da casa dela, os pais dela chegaram de supresa e pegaram ela fazendo um boquete em mim, com a minha porra ainda na boca, pra tentar deixar aquilo tudo menos constrangedor, ela disse, enquanto eu ainda tava sentando no sofá com o pau pra fora, “esse é o Marcos, meu namorado, país.”

#20 Controle universal


O Vargner dizia pra todos que mulher de amigo dele pra ele é homem, só não contava pra quase ninguém que era bissexual.

Ele estava distraído assistindo na TV do bar a segunda edição do jornal local dizendo que houve um aumento nos últimos anos no número de violência na capital maranhese, enquanto acabava de beber sua cerveja pra tentar se refrescar na quarta-feira quente, o Cleiton chegou e deu um soco nele.

Essa revolta, só agora, comprova a teoria que o corno é sempre o último a saber.

 O Vargner se levantou e chamou o antes amigo e agora rival pra rua, pois não queria dar prejuízo pra mim, mas já era tarde, porque o soco derrubou o Vargner que junto com ele caiu o controle da TV que estava em cima do balcão e quebrou.

Enquanto estavam indo em direção a rua, chegou os PM’s que vieram pegar o que eu chamo de “incentivo pra eles trabalharem com mais dedicação e assim o bar fica seguro,”. Por isso os brigões foram um pra cada lado, o Cleiton feliz pelo soco e o Vargner se vangloriando por muitas vezes ter gozado de tarde na boca que o Cleiton beijava quando chegava do trabalho a noite.

Aproveitei que no dia seguinte ia à feira do João Paulo fazer algumas compras pra adquirir logo um controle novo. O vendedor ambulante me mostrou vários, entre eles um universal que fez eu me lembrar da minha pré adolescência.

 Quando voltava da escola eu saia desligado a TV de todos que moravam no caminho entre a escola que frequentava e a minha casa, só pra testar se o controle era realmente universal, até que um dia eu desliguei a televisão de um cara que estava assistindo um programa que ensinava como lidar com a raiva, ele quebrou o controle na minha cara, nesse dia eu tive a prova que o controle era realmente universal, tão universal que até me desligou por algumas horas e por isso meu pai nunca mais comprou outro igual lá pra casa. Levando pela nostalgia comprei o controle mesmo ele sendo mais caro.

Depois de já ter aberto o bar, eu fui testar-lo, ele não funcionou, troquei as pilhas e nada. Levado pela dica que pode ser tudo resolvido com sutileza, sutilmente dei uns socos fortes nele, e essa foi mais uma tentativa fracassada. Deixei ele de lado. Liguei a TV do jeito que meus antepassados faziam, indo até ela e apertando no botão de ligar.

Comecei a receber os clientes e acabei esquecendo o controle em cima do balcão de novo. Um cliente veio pagar e como eu estava com as mãos ocupadas, pois estava preparando um hambúrguer, pedir pra ele deixar o dinheiro de baixo do controle. 

A esposa de um cliente queria assistir a novela, ele me perguntou se poderia trocar de canal e eu permiti. O marido da noveleira pegou o controle com o dinheiro e tudo e conseguiu usa-lo. Fiquei surpreso, e assim que acabei de preparar o pedido da cliente, eu fiz o mesmo que o cliente fez. Peguei o controle com o dinheiro enrolado nele e ele funcionou novamente. Fiquei alguns minutos abismado com a falta de explicação lógica pra aquilo, até que cheguei a conclusão óbvia: o controle é universal, logo só funciona em prol do dízimo.

#19 No pain no likes

Antes ele raramente colocava fotos nas redes sociais, até ganhar um cachorro de presente, colocou uma foto com ele e ganhar mais likes do que em qualquer outra foto que já tinha postado, por isso começou a publicar fotos com mais frequência.

 Depois que baixou o instagram percebeu que fotos de gatinhos também são bastante curtidas, pensando nisso, de vez comprar um, comprou logo dois , mas só fez isso depois de pesquisar qual raça de gato ganha mais likes.

Com o número de curtidas e de seguidores aumentando resolveu variar suas publicações. Fez um curso de culinária e quanto mais seu conhecimento gastronômico aumentava, mais fotos de comidas eram postadas em suas redes sociais. Voltou a frequentar a academia e malhava pesado, pois sabia que no pain no likes.

Começou a frequentar bares e festa com mais frequência, porém não fazia isso por acaso, era tudo planejado, sabia que fotos em barzinhos e em festas também dão bastante curtidas. Em uma dessas festas conheceu sua namorada. Antes de saber o nome dela já tinha em sua cabeça até o nome que daria ao filho deles. Tudo que ele planejou aconteceu, depois de namorar com ela por um ano se casaram. Eles tiveram um filho dois anos após trocarem seus status de relacionamento sério pra casado. 

Três anos e dez meses depois de ter nascido o seu primogênito, a sua esposa pediu o divórcio. E foi esse pedido que fez ele vim ao bar em plena terça-feira à noite no meio da chuva, pois ele estava muito triste, não conseguia aceitar aquilo, tinha quase certeza que o seu coração não aguentaria ter que abrir mão de algo tão importante na sua vida: Os 10 mil likes que ganhou na foto dos dois em cima do altar.