#20 Controle universal


O Vargner dizia pra todos que mulher de amigo dele pra ele é homem, só não contava pra quase ninguém que era bissexual.

Ele estava distraído assistindo na TV do bar a segunda edição do jornal local dizendo que houve um aumento nos últimos anos no número de violência na capital maranhese, enquanto acabava de beber sua cerveja pra tentar se refrescar na quarta-feira quente, o Cleiton chegou e deu um soco nele.

Essa revolta, só agora, comprova a teoria que o corno é sempre o último a saber.

 O Vargner se levantou e chamou o antes amigo e agora rival pra rua, pois não queria dar prejuízo pra mim, mas já era tarde, porque o soco derrubou o Vargner que junto com ele caiu o controle da TV que estava em cima do balcão e quebrou.

Enquanto estavam indo em direção a rua, chegou os PM’s que vieram pegar o que eu chamo de “incentivo pra eles trabalharem com mais dedicação e assim o bar fica seguro,”. Por isso os brigões foram um pra cada lado, o Cleiton feliz pelo soco e o Vargner se vangloriando por muitas vezes ter gozado de tarde na boca que o Cleiton beijava quando chegava do trabalho a noite.

Aproveitei que no dia seguinte ia à feira do João Paulo fazer algumas compras pra adquirir logo um controle novo. O vendedor ambulante me mostrou vários, entre eles um universal que fez eu me lembrar da minha pré adolescência.

 Quando voltava da escola eu saia desligado a TV de todos que moravam no caminho entre a escola que frequentava e a minha casa, só pra testar se o controle era realmente universal, até que um dia eu desliguei a televisão de um cara que estava assistindo um programa que ensinava como lidar com a raiva, ele quebrou o controle na minha cara, nesse dia eu tive a prova que o controle era realmente universal, tão universal que até me desligou por algumas horas e por isso meu pai nunca mais comprou outro igual lá pra casa. Levando pela nostalgia comprei o controle mesmo ele sendo mais caro.

Depois de já ter aberto o bar, eu fui testar-lo, ele não funcionou, troquei as pilhas e nada. Levado pela dica que pode ser tudo resolvido com sutileza, sutilmente dei uns socos fortes nele, e essa foi mais uma tentativa fracassada. Deixei ele de lado. Liguei a TV do jeito que meus antepassados faziam, indo até ela e apertando no botão de ligar.

Comecei a receber os clientes e acabei esquecendo o controle em cima do balcão de novo. Um cliente veio pagar e como eu estava com as mãos ocupadas, pois estava preparando um hambúrguer, pedir pra ele deixar o dinheiro de baixo do controle. 

A esposa de um cliente queria assistir a novela, ele me perguntou se poderia trocar de canal e eu permiti. O marido da noveleira pegou o controle com o dinheiro e tudo e conseguiu usa-lo. Fiquei surpreso, e assim que acabei de preparar o pedido da cliente, eu fiz o mesmo que o cliente fez. Peguei o controle com o dinheiro enrolado nele e ele funcionou novamente. Fiquei alguns minutos abismado com a falta de explicação lógica pra aquilo, até que cheguei a conclusão óbvia: o controle é universal, logo só funciona em prol do dízimo.

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8 comentários

  1. “universal, logo só funciona em prol do dízimo.” AUAHUHAUHUAHUAHUAHUAUH
    sensacional hauhuahuaa
    “Liguei a TV do jeito que meus antepassados faziam,” AUHHAUHUAUHA
    muito massa manolo! auee!! o/

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  2. No tanto a temática mas o, digamos, ambiente dos contos, me lembra um pouco Ariosto Augusto de Oliveira. Foi um escritor relativamente conhecido nos anos oitenta. O universo dos seus contos era intensamente urbano, com ênfase em ambientes de classe operária, no mundo do pequeno criminoso e classe média em ascensão. E, a propósito, gosto de ler o que você escreve. Me dá prazer. Abraço.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Esse seu comentário me pegou tão de supresa e me deixou tão animado que nem consigo escrever um agradecimento além de muito obrigado.
    Admito que não conheço o Ariosto Augusto de Oliveira, porém vou procurar conheço, algo me faz acha que vou aprender muito lendo ele. Valeu!

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